domingo, 28 de fevereiro de 2010

COMO ERA GOSTOSO O PÃO FRANCÊS

Hoje tive que ir ao supermercado. Simplesmente não tinha mais nada comível em casa. Adio esse momento até não poder mais. Ironia, pois devia ser um prazer. Antigamente era uma obrigação, a mala do carro ficava cheia de sacolas: quilos disso, dúzias daquilo. Agora, que os filhos já foram viver suas vidas e eu já me aposentei, devia poder curtir só o que gosto, certo? Errado. A questão da comida virou uma verdadeira guerra entre o bem e o mal. Não há uma vez que eu abra a Internet que não receba um monte daqueles e-mails aconselhando todo tipo de cuidado, coisas que a gente sempre comeu e descobre que já era para ter morrido, de tão ruins que são para a saúde; outras que nem sabíamos que existiam e somos informados que não dá para viver sem. E você tem que estar sempre se atualizando, pois uma coisa pode ser indispensável hoje e um veneno amanhã. O maior exemplo é o ovo. Imagino a confusão que deve ser nas granjas: nem as galinhas sabem mais se é para botar ou não. Os médicos são verdadeiros sádicos. As vezes me dá vontade de perguntar se eles seguem o que recomendam. Basta ir fazer um check-up básico e a gente sai com um monte de prescrições e receitas, mesmo que tenha ido ao dermatologista só para perguntar se seria bom tirar aquele sinal que apareceu no ombro esquerdo. No início achei prudente pregar as normas na porta da geladeira: o que posso, o que não posso, o que devo, o que não devo. Até o dia em que eram tantas listas e ímãs que não consegui encontrar a geladeira. Aí tirei tudo, e nem levo mais lista quando vou às compras. Descobri o princípio da coisa: basta você passar a comer e beber só o que não gosta, e evitar o que gosta. É óbvio que todos os defeitos que o médico detecta no seu organismo se devem aos hábitos que você cultivou na vida, então há que reverter o processo.

Assim, fui enchendo o carrinho com todas as coisas insossas que encontrei, percorrendo as prateleiras preguiçosamente. Ao final, me dirigi orgulhosa ao caixa, certa de que seria aprovada em qualquer vistoria. De repente, ao passar pela seção de pães, uma moça de avental colocou, quase no meu caminho, uma enorme cesta cheia de pãezinhos franceses, recém saídos do forno. O cheiro era ensurdecedor. “Cacetinhos” - murmurei, lembrando de Salvador. A moça viu meu ar desolado. Deve ter achado que pisou no meu pé, ou talvez intuiu mesmo a maldade maior que acabara de me infligir. Pediu timidamente desculpas. Eu ali, respirando fundo, apoiada no carrinho, me deixava levar pelo cheiro para um mundo tão antigo que julgava perdido na memória: mamãe passando manteiga no pão, aquele cheirinho misturado com o da mão dela enquanto mexia o café, eu já salivando com o nariz pregado na mesa. Ou pedindo para um de nós comprar “duas bisnagas”, e todo mundo queria ir. Ela dava o dinheiro e avisava: “Mas é para o lanche, não é para comer no caminho não, hein?”. Falava por falar. Sabia que a bisnaga já chegaria sem o bico, que a parte boa era voltar comendo a ponta quentinha. Olhei o pão integral acomodado imponente no meu carrinho, cheio de avisos de coisas corretas na embalagem: fibras, cereais, sem gluten, sem gordura trans, etc. Sondei em volta: ninguém estava vendo. Surrupiei dois cacetinhos e joguei no carrinho. Mas aí me lembrei também da merenda, o sanduíche que mamãe fazia com mortadela. Voltei ao balcão de frios, pesquei um pacote de mortadela – pecar por pouco, pecar por muito.

Vim pela rua meio desconfiada, olhando para os lados, com medo de ser parada pela polícia; imaginava o defensor da lei e dos bons costumes me interpelando: “O que é que a senhora está levando aí?” Quando já ia chegando, quase tropecei em dois meninos dormindo na calçada; desses meninos que tem gente que chama de “menor”, mas que eu acho que são crianças também. Dormiam tão quietos que me preocupei, parei para ver se respiravam. Um devia ter uns doze anos, o outro era mais novo. Dava para ver as perninhas magras saindo da coberta. Olhei para o céu: “Tá bom, já entendi, cara!” Tirei a sacola com os dois pãezinhos e o pacote de mortadela e ajeitei ao lado deles. O caçula acordou; deve ter sido pelo cheiro. Mandei um beijo com a mão e fui embora. Estava satisfeita, pronta para o meu pão integral. Foi o melhor pão francês que já não comi na vida. Inda mais com o sorriso lindo que o menino me deu de troco.


RJ, agosto 2009

Um comentário:

Madú Braga disse...

Fiquei na dúvida se é conto ou crônica, mas o texto é ótimo! Merece registro urgente!