domingo, 28 de fevereiro de 2010

EM BUSCA DA HISTÓRIA PERDIDA


Perdi a memória. Desde que saí do coma, ouço minha mãe (a mulher que estava sempre lá e que me apresentaram como tal) discutindo com os médicos, que dão explicações complicadíssimas, ininteligíveis, sobre as probabilidades de eu vir a recobrar a dita cuja. Em casa, a Mãe tentou me fazer lembrar coisas. Registrei algumas informações (nome, idade, profissão, situação financeira, estado civil) mas pedi-lhe encarecidamente que não me dissesse mais, que esperasse eu lembrar. Afinal, perdi a memória mas não o bom senso: não vou adotar assim de graça a sua versão da minha vida, prefiro ir montando a coisa aos poucos.

Meu único outro pedido foi que não contasse a ninguém do meu estado: não quero que me atribuam atitudes ou palavras que não tenho como checar se são verdadeiras . Também levei um tempo sem participar de eventos sociais: receio encontrar pessoas que detectem meu vazio total. Ontem, no entanto, resolvi ir ao aniversário do que a Mãe diz ser meu Melhor Amigo; em parte porque já rechaçara duas vezes suas tentativas de folhear comigo um álbum de fotos da infância e adolescência, e ela já estava com um ar de "depois-de-tudo-que-fiz-é-assim-que-você-me-trata?"; em parte porque as pessoas podiam desconfiar de tanto sumiço.

Entrei no clube. Passei pelo salão às escuras onde as pessoas se balançavam convulsivamente sob a batuta de um dj enlouquecido e me dirigi às mesas do terraço. Numa delas vários braços me acenaram; eram os meus Melhores Amigos, ou pelo menos os que eu podia reconhecer porque me visitaram no hospital.

Garçons passavam com salgadinhos, bebidas. Me ofereceram uma cerveja. Declinei, pedi um copo d'água, lembrei das recomendações dos médicos, expliquei: "Ainda não estou podendo..." Os Melhores Amigos riram muito: "Demais, cara! Ainda não está podendo! Até parece que algum dia bebeu! É aquela sua idéia de resgatar o gerúndio para acentuar a transitoriedade, né?" Não entendi nada. Um perguntou: "Como é mesmo que você dizia, transitoriedade ou impermanência?" Olhei para a rua. Ainda muito movimento de carros. Disse, distraidamente: "Trânsito!" Acharam maravilhoso. "Genial, cara, trânsito, nem transitoriedade nem impermanência!" O papo ia assim escorrendo sem eira nem beira nem peneira, mas pelo menos ninguém parecia notar nada da minha amnésia. Perguntaram: "E o livro novo, já resolveu o título?" Olhei de novo lá fora, vi um gato, balbuciei: "Gato na Calçada". Julgaram o título fantástico, muito apropriado e sugestivo. (A Mãe já me mostrara o tal livro, mas era muito parecido com essa conversa; não entendi nada, parei na terceira página, um tédio!) No geral, não posso dizer que não tenha sido uma reunião agradável, apenas não sei sobre o que falamos a noite toda. Todos achavam tudo o que cada um dizia maravilhoso, fantástico, genial.

Ao final da festa, já ia pedindo ao porteiro para chamar um táxi quando um Melhor Amigo apontou: "Olha lá, é a Lê! Acho que você não conhece, mas ela mora na sua rua, pode te levar." Chamou-a. Não sei bem se foi o jeito que ela se virou, uma mão na porta, a outra levantada ajeitando os cabelos, ou o olhar que ela me mandou por cima do ombro, que me atingiu em cheio. Só sei que nunca senti aquilo. Duvido que se tivesse sentido esquecesse... Entrei no carro como se de volta ao coma, mas com uma leve dor de barriga: medo de que ela começasse a fazer perguntas que eu não saberia responder. Ainda bem que o percurso não era tão longo, ela se ateve ao básico, que eu já conhecia (nome, idade, estado civil, profissão, etc.). Na despedida, o convite : "Vamos pegar uma praia amanhã?"

Entrei em casa excitadíssimo, fui direto para o computador (essa habilidade não perdi, como a de falar, ler e escrever). Tinha que me preparar para a praia. Listei as perguntas que gostaria de fazer a ela, e que ela provavelmente vai querer me fazer. Catei respostas no google: lembranças de infância, aniversários, escolas, namoros, viagens, livros, restaurantes, músicas. Quando amanheceu já tinha construído toda uma vida para substituir a que me escapara da mente. Com direito a notas rabiscadas em pequenas tiras de papel para "colar", se necessário. Tenho de novo uma história. Para seduzir a Lê. Espero que funcione.


RJ, março 2010

2 comentários:

Madú Braga disse...

Gosto tanto dessa história! Volto aqui depois para ler e comentar as outras.

Madú Braga disse...

Acho que todos merecem ser publicados. Já li até "Ressurreição". Adorei! Volto depois para ler os outros.